Crônicas

Realidade Adversa

“Da minha infância querida, que os anos não trazem mais…”

“Maringá, Maringá, depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste que eu garrei a imaginar…”

“Vento que balança as palhas dos coqueiros, vento que encrespa as ondas do mar…”

Aqui, sentada na varanda, Felícia aos meus pés, o sol de setembro ainda ameno e o trinar dos passarinhos me zoando aos ouvidos, eu penso.

Sem pressa, sem ódios, sem amor. Como trilha sonora, busco deliberadamente os sons que embalaram as minhas inquietações juvenis.

Não, não é fuga. Não é alienação. E nem poderia ser.

Tantas coisas acontecendo no mundo… de santos a demônios, de guerras em palavras, intenções e atos…

De surpresas a favas contadas…

De descaso em vida a homenagens póstumas…

Como abstrair? Como brincar de faz de conta?

A dicotomia permeia tudo: céus e terra, humanos e não humanos.

Os bruxos estão soltos…

Ou talvez sempre tenham estado.

No ar, nas ideias, nas esquinas e nos templos. E se disseminam nas ondas invisíveis que o homem, esse ser maravilhoso, “à imagem e semelhança de Deus”, colocou à nossa disposição.

De ondas eu entendo, pois foi nelas que me refugiei desde a idade em que meus pensamentos se tornaram perguntas e porquês.

E sigo aqui, entre ondas…

As que me acalentam e as que me desafiam. Ondas de mar, de rádio, de pensamento… sempre elas a me lembrar que a vida não cabe em extremos, mas se move no vai e vem do tempo.

E, nesse movimento aonde me encontro, entre idas e vindas, sigo buscando abrigo…

Pois mesmo que eu veja, ou só mesmo perceba do meu ponto de vista, a realidade adversa por onde a humanidade caminha, se eu me alienar, deixo de cumprir o meu lugar no mundo.

Maria Elza G. Gonçalves

Aposentadoria e entrada na Terceira Idade. Duas mudanças importantes que ocorrem na vida das pessoas e que merecem nossa reflexão.

2 comentários

  1. Maria Elsa, as ondas da vida! Sim, assim como o vento, no passar do tempo, vivendo o hoje. Como não se ver em sua crônica. Muito bela.

    1. Obrigada, amiga! A realidade sobressai…a nós cabe abstrair ou ao menos expor que estamos atentos e sempre manter a esperança pelo melhor! Bjs.

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